Entrevista A Daniel Sánchez Pardos

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Entrevista A Daniel Sánchez Pardos

Mariposa
Tuatha De
Mariposa
Tuatha De
Joined: 09 Feb 2006, 15:31

07 Mar 2016, 21:12 #1



Como tínhamos anunciado há dias, Daniel Sánchez Pardos, autor de "O Misterioso Senhor G" esteve em Lisboa para o lançamento do seu livro, e não quisemos perder a oportunidade de o conhecer. Assim, no âmbito do PASSATEMPO que fizemos em parceria com a Planeta, demos-vos a oportunidade de lhe perguntarem tudo aquilo que gostassem de saber e, no passado dia 01/03 estivemos com ele para lhe colocar as vossas questões.

Eis aqui o resultado da NOSSA entrevista!

De tantos artistas de renome em Espanha, porquê Gaudí?
Gaudí interessa-me, em primeiro lugar como artista, e depois, como pessoa. Sou de Barcelona e ele é uma presença constante na cidade. Desde que era criança, sempre vivi à volta das obras dele. Ao ler sobre ele, percebi que é muito interessante o pouco que sabemos sobre ele. Era um homem muito íntimo, que não deixou nada escrito - tudo o que sabemos sobre ele vem daquilo que se diz sobre ele e daquilo que queremos deduzir das suas obras. Para um romancista essa condição de personagem desconhecida da muita liberdade, permite imaginar - ainda mais na época sobre a qual eu escrevo, que é a da sua juventude. Basicamente não se sabe nada desses anos, pelo que há muito espaço para fabular.

Não se sentiu intimidado ao dar corpo e voz a uma personagem histórica tão conhecida como Gaudí?
Ter-me-ia sentido intimidado se escrevesse sobre o Gaudí adulto, quando já era um artista conhecido. O Gaudí jovem, ao ser numa altura da qual não se sabe nada e aquilo que se conhece mostra-o como uma pessoa muito diferente daquela que viria a ser mais tarde, é como preencher um espaço do qual nada se conhecia. Assim, há uma certa liberdade que seria mais difícil com outra altura melhor documentada e que teria de respeitar mais. Neste caso atrevi-me por isso.

Quais os livros que mais o inspiraram a ser escritor?
Como todos os escritores, são os livros que lemos quando somos crianças os que mais nos marcam. No meu caso, foram os livros de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, e o Drácula, de Bram Stoker. Sentia-me muito atraído pela literatura inglesa, sobretudo a literatura da época vitoriana. Ainda hoje têm muita influência sobre mim.

Este livro exigiu um trabalho de pesquisa muito profundo. Quanto tempo levou?
Na verdade, quando estás a escrever um romance histórico, lês um bocado antes de começar e depois vais-te documentando à medida que avanças, para ir resolvendo os problemas que vão aparecendo ao longo da escrita. O processo geral demorou dois anos, entre a investigação e a escrita.

O que é que achou mais difícil de passar para palavras?
Aquilo que mais problemas me deu foi mostrar a Barcelona daquela altura. Não foi tanto a personagem, porque havia liberdade para imaginar sobre ele, mas a Barcelona daquela época está muito documentada e, sobretudo, nessa altura estava a atravessar um processo de mudanças muito forte. Há muitas coisas que se pareciam pouco à Barcelona que conhecemos hoje e, além disso, as coisas mudavam muito rápido. Quando estamos a escrever sobre um ano em concreto - neste caso o livro decorre em 1874 - é difícil descobrir exactamente quais as coisas que existiam nessa altura, o que é que estava prestes a existir... Esse processo de entrar e mostrar uma cidade inteira por palavras, e fazer que essas palavras estejam ajustadas à realidade, é aquilo que mais me custou.

Barcelona é ainda uma cidade em convulsão, ou, pelo contrário, está bastante acomodada?
Barcelona é uma cidade que está sempre em processo constante de mudança. A cada 10 anos está diferente. Mas naquele momento no século XIX, a mudança é muito maior porque Barcelona era uma cidade muito pequena, provinciana, e é nesses anos de 1860-70 quando começou a mostrar-se ao mundo e a ser a cidade que hoje conhecemos. Esse momento do século XIX é sem dúvida o grande momento da mudança de Barcelona, só igualado ao que foi em 1992, com os Jogos Olímpicos, que remodelaram completamente a cidade e também a tornaram na cidade internacional que é hoje.

Se as viagens no tempo fossem possíveis que época histórica gostaria de visitar para depois a descrever em livro?
Continuaria a ficar-me pelo século XIX. Acho que é o mais fascinante porque é o momento em que começa a modernidade e termina com o modelo de vida clássico, ligado ao campo, aos ritmos naturais da vida humana. Foi nessa altura que tudo isso mudou, graças ao crescimento das cidades, às fábricas que impuseram os seus próprios ritmos à vida humana, à passagem da religião para a ciência... Tudo isso está no século XIX e é um momento em que se deu tal colisão entre o mundo velho e o mundo novo que acho que é fascinante.

Há algum escritor português que goste? Qual e porquê?
Tenho de escolher Fernando Pessoa. Sobretudo quando era mais novo, adolescente, Pessoa foi um dos poetas que mais me marcou. O Livro do Desassossego é um livro que uma pessoa pode pegar e reler qualquer página em qualquer momento e da a sensação de estar em contacto directo com uma pessoa. Não é muito frequente, embora qualquer livro seja um meio de comunicação entre o autor e o seu leitor, mas há autores que parecem estar muito mais próximos, que estão a falar directamente para ti. Pessoa é um desses autores.

Que história gostaria de escrever, apesar de ainda não ter tido coragem para tal?
Tenho muitas histórias na cabeça, como todos os escritores. Agora mesmo está-me a custar e gostaria de escrever alguma história ambientada no presente, no momento actual, e falar sobre toda a confusão na que estamos todos metidos agora e todas estas mudanças. Tal como disse que o século XIX era um século de mudanças, este XXI também está a ser e de forma muito acelerada. Mas isto é tudo tão imediato que às vezes um escritor precisa de uma certa distância e dá mais medo escrever sobre aquilo que temos mesmo à nossa frente do que sobre aquilo que temos de investigar nos livros. É precisa uma maior distância.

Qual o escritor, vivo ou morto, escolheria para jantar consigo?
Escolheria Jorge Luís Borges porque, de todos os autores que me influenciaram como adulto, é aquele que mais me atrai. Haveria tantas coisas a perguntar e falar com ele que, se tivesse a oportunidade de o conhecer, num almoço ou jantar, não a perderia. Borges morreu em 1986, quando eu tinha sete anos, pelo que sempre o conheci como um autor morto, mas os seus livros transmitem uma sensação de uma pessoa muito real que está ao nosso lado a falar e que gostava de conhecer.

Qual o conselho que daria aos jovens escritores de hoje em dia?
Leiam muito, escrevam muito e não tenham medo de rasgar tudo o que escreverem - porque há de chegar um momento, com o passar dos anos, em que vão acabar por escrever coisas que realmente valem a pena e que outras pessoas vão querer ler.

Se quiserem ficar a conhecer mais sobre o autor, visitem o seu site oficial
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