"Temos de trazer o camião para dentro do comboio"

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"Temos de trazer o camião para dentro do comboio"

Fábio Pires
Administrador
Registado: 05 fev 2008, 21:14

23 ago 2017, 19:52 #1

Medway quer conquistar mercado fora da ferrovia 


PERGUNTAS A CARLOS VASCONCELOS
Presidente da MEDWAY

A Medway, designação adoptada pela CP Carga após a privatização, pretende que o Governo português sensibilize o espanhol para a realização de investimentos na linha que permitam aos comboios transportar camiões.

A empresa que já se chamou CP Carga investiu 15 milhões em novas locomotivas para entrar em Espanha, onde vai abrir escritório e contratar. O "break even" pode ser atingido este ano. 

Medway, marca em que se transformou a CP Carga na sequência da privatização ganha em 2015 pela MSC Rail, vai entrar em Espanha em Setembro, altura em que prevê que as quatro novas locomotivas interoperáveis que adquiriu comecem a operar.

Ao Negócios, Carlos Vasconcelos, presidente da Medway, explicou que as novas locomotivas. que exigiram um investimento de 15 milhões de euros, vão permitir à empresa ser mais competitiva. Isto porque, "podendo operar tanto em Portugal como em Espanha, com uma única locomotiva que faça o trajecto todo, conseguimos oferecer um preço melhor ao cliente”. É que hoje para o transporte entre os dois países é necessário utilizar duas locomotivas, uma em cada território, porque os sistemas são diferentes.

A multinacional MSC assumiu a gestão da CP Carga em Janeiro de 2016, depois de ter desembolsado 53 milhões, dos quais 51 milhões para a recapitalização da empresa pública. Desde a primeira hora que os novos donos assumiram o objectivo de a transformar "no primeiro operador ibérico de transporte ferroviário de mercadorias".

A estratégia, sublinhou em entrevista ao Negócios Carlos Vasconcelos "é crescer no segmento que não está na ferrovia, ou seja, em 95% do mercado em que a ferrovia não entra", designadamente no rodoviário.  

"Precisamos de ter serviços concorrentes com o camião, oferecendo o mesmo por um competitivo e isso sem locomotivas interoperáveis não se consegue fazer", destacou, justificando o primeiro grande investimento realizado na empresa após a privatização.

As quatro novas locomotivas já estão em Portugal, seguindo-se agora um processo administrativo para que possam começar a circular. "Esperamos no dia 1 de Setembro começar a operar", apontou, sublinhando que o grupo irá continuar a trabalhar com seus parceiros espanhóis, os quais podem contribuir para a operação fornecendo, por exemplo, maquinistas ou vagões, conforme os acordos comerciais que forem feitos. A empresa vai abrir um pequeno escritório em Madrid e Carlos Vasconcelos não tem dúvidas que haverá necessidade de recrutar pessoal no país vizinho.  

A prioridade da Medway é, neste momento, crescer no mercado ibérico. Até porque as novas locomotivas não podem, por causa das bitolas (distância entre carris), passar dos Pirinéus. "Primeiro temos de consolidar a nossa posição no mercado ibérico: mais tarde pensaremos no mercado para além dos Pirinéus", afirmou o responsável, admitindo, no entanto, que "faz parte dos planos trabalhar esses mercados para lá dos Pirinéus, até pela própria pressão do mercado nacional que procura soluções nesse sentido”. No entanto “nesta fase isso será feito em parceria com outros operadores europeus, designadamente franceses, alemães ou italianos.

Faz parte dos planos trabalhar os mercados para lá dos Pirinéus, até pela própria pressão do mercado nacional e ibérico.
CARLOS VASCONCELOS
Presidente da Medway

“Break even” em 2017

Depois da redução dos prejuízos da empresa no ano passado – de 11 para cerca de 2 milhões-, —, Carlos Vasconcelos sublinha que "este ano gostaríamos de atingir o 'break even’” (equilíbrio), apesar de considerar ainda cedo para ter certezas e de garantir que o grupo "não tem pressas", "A empresa está estabilizada, está dentro do orçamento e dos objectivos que traçámos" , garantiu.

Uma das alterações ao negócio introduzidas pelos novos donos foi a organização de comboios multi-cliente, "o que trouxe um crescimento significativo" porque permitiu conquistar clientes que antes não tinham volume suficiente para comprar um comboio completo, como exigia a antiga CP Carga.

Outra área de negócios que a empresa gostaria de explorar em breve é o das caixas móveis (que podem ser transportadas na ferrovia ou em camiões).

À espera do Ferrovia 2020

Carlos Vasconcelos não tem dúvidas que a concretização do plano Ferrovia 2020, que tem previsto um investimento de 2,7 mil milhões de euros nos próximos anos, "vai ter impacto" para a Medway, não só por se destinar "a melhorar alguns troços da ferrovia portuguesa", mas também porque "vai permitir aumentara capacidade dos comboios".  

"Quando as actuais restrições da linha desaparecerem vamos poder transportar mais carga, o que significa que o custo por tonelada vai baixar, o que nos permite oferecer ao mercado preços mais baratos” salientou. Os dois corredores internacionais - Norte e Sul – “vão permitir aumentar significativamente a nossa capacidade de transporte quer pelo tamanho dos comboios quer pelo peso que as linhas podem suportar", esclareceu. Carlos Vasconcelos está ciente que os investimentos nestas intervenções "não se fazem de um dia para o outro", mas está certo de que "quando estiverem concluídos todos os operadores ferroviários vão ficar satisfeitos".

Quando as actuais restrições acabarem vamos poder transportar mais carga
CARLOS VASCONCELOS
Presidente da Medway

“Temos de trazer o camião para dentro do comboio”

A Medway pretende que o Governo português sensibilize o espanhol para a realização de investimentos na linha que permitam aos comboios transportar camiões.


Depois da entrada em Espanha, quais são os grandes projectos da Medway para crescer?
Onde queremos crescer e ganhar quota de mercado é à rodovia. Não tanto combater o camião, mas arranjar parcerias com o camião de forma a trazer o camião para a ferrovia. um dos cenários que teremos de trabalhar no futuro é trazer o camião para dentro do comboio, ou seja, em vez de o camião fazer longas distâncias, pôr o camião dentro do comboio. A rodovia é um meio flexível, oferece soluções que a ferrovia não pode oferecer, mas tem limitações muito fortes a nível europeu, que se vão notar na península Ibérica que tem a ver com questões de segurança. congestionamento das estradas, consumo de C02.  

Porque é que esse projecto ainda não avançou?

Não conseguimos avançar por questóes operacionais. Houve aí algum optimismo exagerado. Há um problema na linha espanhola porque depois de Vilar Formoso há três túneis que não têm altura suficiente para os comboios com camiões passarem. É preciso baixar a linha. Como estamos a falar do território espanhol só o governo espanhol é que pode decidir se faz ou não esse investimento. Nós não temos qualquer possibilidade de intervenção nessa matéria.

O que podem fazer?

Estamos a preparar uma exposição detalhada ao Governo com dados económicos e de volumes para que, se o Governo entender que tem interesse, possa discutir com Espanha e eventualmente com a União Europeia. Estamos também a preparar o mesmo com o nosso parceiro espanhol para, se ele entender adequado, sensibilizar o Governo espanhol.

Quais são os argumentos?

Económicos e ambientais. E uma coisa em que Espanha é muito sensível que é a segurança. Transferir camiões para o caminho de ferro diminuiu o risco de sinistralidade. 

A rodovia é um meio flexível, mas tem limitações muito fortes a nível europeu que se vão notar na Península Ibérica.

CARLOS VASCONCELOS
Presidente da Medway

Terminais da IP interessam ao grupo

A Medway está atenta às intenções da Infraestruturas de Portugal (IP), que se prepara para depois do Verão avançar com a concessão a privados de terminais ferroviários de mercadorias. "Como operador ferroviário estamos interessadíssimos em ter bons terminais, se para isso for necessário nós investiremos ou de raiz ou pegando nos que já existem", afirmou Carlos Vasconcelos. "A IP, o que disse, que gostámos de ouvir, é que procura parceiros que acrescentem valor à ferrovia. Para isso contem connosco", salientou, acrescentando que o mesmo não acontecerá se a IP olhar para os terminais apenas como uma fonte de rendas. "Estamos dispostos a investir para trazer mais comboios e mais carga para a ferrovia", salientou o presidente da Medway, que aguarda ainda pormenores sobre o projecto concreto da IP.

Jornal de Negócios

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