23 cm isolam Portugal da Europa

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Fábio Pires
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Registado: 05 fev 2008, 21:14

30 jul 2017, 09:34 #1

Empresários, gestores e investigadores alertam para o risco de Portugal se tornar uma “ilha ferroviária” por não estar a apostar na bitola europeia, como a Espanha
Pode Portugal estar condenado a po­breza por uma questão de 23 cm? Pode, sim, Segundo os 39 empresários, gesto­res, economistas, engenheiros, inves­tigadores, professores e demais signatários do manifesto "Portugal — Uma ilha Ferroviária na União Europeia", divulgado na Integra e em exclusivo no site do Expresso.
Caso não aproveite rapidamente os fundos europeus para passar da cha­mada bitola ibérica (distancia entre os carris de 1668 milímetros), que e usada na centenária rede ferroviária nacional, para a chamada bitola euro­peia, que já e usada em Espanha e nas redes transeuropeias (distancia entre os carris de 1435 milímetros), o Estado português vai condenar as exportações a crescentes custos de transporte, as empresas a deslocalização e os tra­balhadores a salários mais baixos e a perda de postos de trabalho.
Uma vez que "os comboios nacionais não irão poder prosseguir por terras de Espanha, porque do lado de la as li­nhas irão ter distancias entre os carris (bitolas) diferentes", o manifesto con­clui que "Portugal ira ficar isolado da União Europeia, com consequências económicas bastante graves, uma vez que se tornara cada vez menos atraen­te para o investimento industrial, quer nacional quer estrangeiro".
"Este manifesto não tem a ver com comboios, mas como empobrecimen­to do país. E a vida de todos os por­tugueses que está em causa. Afeta os operários das fábricas, os empregados dos escritórios, as pensões, os impostos que pagam hospitais, educação.... Afeta tudo! Por isso e que não podemos es­perar que feche uma Autoeuropa para abrirmos finalmente os olhos para o imperativo da bitola europeia", alerta o professor do Instituto Superior Técnico Mário Lopes, que, a par do empresário Henrique Neto ou do investigador Eugénio Sequeira, e um dos promotores do manifesto já enviado aos lideres dos partidos com assento parlamentar e ao Presidente da Republica.
Na carta enviada a classe politica, a que o Expresso teve acesso, os signatários do manifesto dizem-se "profunda­mente preocupados com o abandono a que foram votados os caminhos de ferro portugueses e, principalmente, com os problemas económicos e políticos que podem resultar da falta de acesso competitivo das exportações portugue­sas ao nosso maior mercado, que e o europeu. Estes problemas derivam das diferenças entre as politicas de Portugal e Espanha relativas a introdução da bitola europeia, que tendem a transfor­mar Portugal numa ilha ferroviária na União Europeia".
Espanha mexeu-se
Há muitos anos que se discute em Por­tugal esta incompatibilidade entre a bitola ibérica e a bitola europeia. Mas enquanto a Espanha aproveitou os fundos comunitários ao longo das últimas décadas para se adaptar ao resto da Europa e encurtar a distancia entre os carris, Portugal nada fez, tendo as exportações portuguesas de gastar mais tempo e dinheiro no transbordo das mercadorias para as plataformas logísticas os chamados "portos secos" — de Badajoz, Salamanca e Vigo.
Exportações portuguesas poderão perder competitividade, porque os comboios portugueses não conseguirão circular em Espanha, alertam os signatários do manifesto
"O que nos moveu foi verificarmos a continuacao do esforco de Espanha corn a progressiva instalação da bitola europeia (Madrid-Barcelona-Franca/Madrid-Corunha/Madrid-Cáceres/ Ma­drid-Pais Basco-Franca, etc.). A causa próxima foi a noticia do investimento espanhol na eletrificação do troco Vi­lar Formoso-Salamanca, mantendo a bitola ibérica com o objetivo de servir a plataforma logística de Salamanca sem possibilitar que os comboios portu­gueses de mercadorias façam o trajeto para Franca ou o leste de Espanha sem transbordos", explica outro dos dina­mizadores do manifesto, o engenheiro Fernando Santos e Silva. Indignado com o facto de Portugal continuar a apostar na modernização da bitola ibérica, o especialista alerta que as travessas polivalentes em que o Governo está agora a investir são uma solução cara e que provocara sempre perturbações de serviço durante a transição entre bitolas (ver caixa).
Fundos desperdiçados
No manifesto lê-se que "Espanha programou o seu futuro com tempo e aproveitou sempre ao limite os fundos europeus, avançando com uma nova rede em bitola europeia há já 29 anos, a crescer em bom ritmo em direção a Europa e a chegar breve­mente a nossa fronteira", enquanto Portugal "não construiu um metro de linha em bitola europeia nem se sabe quando começará".
"Este manifesto e para alertar os por­tugueses para a falta de visão estratégica da anterior e da atual classe politica, que e incompetente e não tem dinheiro, pois andou a desperdiçar anos de fundos comunitários. Nos podíamos ter tido 85% de comparticipação dos fundos comunitários e ter mudado a bitola praticamente de borla. Mas não temos um quilometro de bitola europeia nem esta previsto termos. Os fundos conti­nuam a ir para concertar linhas antigas em vez de fazer chegar as mercadorias a Europa. Por demérito dos nossos responsáveis políticos, o nosso futuro e ser­mos uma colónia de Espanha", explica outro dos signatários do manifesto, o engenheiro Mário Ribeiro.
O gestor e antigo ministro da Indús­tria Luís Mira Amaral, o antigo secre­tário de Estado dos Transportes José Manuel Consiglieri Pedroso, o econo­mista Alfredo Marvão Pereira ou o empresário Patrick Monteiro de Barros já assinaram o manifesto. Ao Expresso, Mira Amaral destaca este desperdício dos fundos europeus que podiam ter sido investidos na bitola europeia. "A questão não e só deste Governo, que se limitou a prolongar a inação do anteri­or... Mas, se não tem dinheiro, que o as­sumam", refere o ministro da Indústria do Governo de Cavaco Silva. "0 que não faz sentido e estar a gastar dinheiro a remendar as atuais linhas ferroviárias, que não servem os interesses do país."

Governo admite eventual migração

Questionado pelo Expresso sabre quantos quilómetros de bitola europeia existem em Portugal e quantos dos atuais investimentos em curso são em bitola europeia, o Ministério do Planeamento e das Infraestruturas esclarece que "a Infraestruturas de Portugal (IP) gere uma rede ferroviária de cerca de 2,5 mil quilómetros, praticamente toda em bitola Ibérica, concordante com a utilizada em Espanha, país com o qual Portugal tem, naturalmente, maior relacionamento neste modo de transporte.
O Plano Ferrovia 2020 prevê a intervenção em cerca de 1,2 mil quilómetros da via — entre construção, modernização e eletrificação —, num investimento que totaliza os €2 mil milhões.
Nesses projetos, nomeadamente nos corredores Internacional Norte (Aveiro-Vilar Formoso) e Internacional Sul (Sines-Caia), serão utilizadas travessas polivalentes, as quais permitem a utilização da bitola ibérica, assim como uma eventual migração para a bitola europeia".
 
Uma questão de economia e de ecologia
Carta enviada aos partidos e ao Presidente da Republica denuncia o "abandono a que foram votados os caminhos de ferro portugueses"
 
O empresário Henrique Neto e o investigador e antigo presidente da Liga para a Proteção da Natureza, Eugénio Sequeira — fundadores do manifesto "Portugal, uma ilha ferroviária na União Europeia?" — enviaram na ultima semana oito cartas dirigidas a Marcelo Rebe­lo de Sousa (Presidente da Repu­blica), António Costa (PS), Pedro Passos Coelho (PSD), Assunção Cristas (CDS-PP), Jerónimo de Sousa (PCP), Catarina Martins (BE), Heloísa Apolónia (Os Ver­des) e André Silva (PAN). Esperam captar a atenção dos principais partidos políticos, já que a recente cimeira ibérica não traçou nenhum rumo para a bitola europeia e por ser urgente a preparação de pro­cessos de candidatura aos fundos comunitários do pOs-2020, Meca­nismo Conectar Europa (CEF) ou do Plano Juncker.
A motivações de Eugénio Se­queira são sobretudo ecol6gicas. [sup]"[/sup]Para haver agricultura a preciso que os produtos cheguem facil­mente e a preços acessíveis aos agricultores". Isso não a garantido pelo transporte rodoviário e quan­to mais se fecham linhas ferroviárias, mais difíceis e caras ficam as deslocações, contribuindo para a desertificação do país.
Eugénio Sequeira contraria também a ideia de que o transporte ferroviário passou a ser uma pri­oridade no país. "O investimento não devia estar a ser canalizado para a bitola ibérica, e uma lógica imediatista, que não olha para o longo prazo. E tao estupido que não consigo justificar esta opção. Mas, mais vale tarde do que nunca."
As razões de Henrique Neto são mais económicas. "Já vamos no quinto quadro comunitário de apoio e não há um quilometro de bitola europeia em Portugal. 0 Governo tem o piano de moderni­zar linhas cuja bitola já só existe em Portugal."

Expresso
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Fábio Pires • Terminal Intermodal • PortalFórumFacebookGrupoTwitterFlickr

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