O Vouguinha pode não voltar aos carris no próximo Verão

Fábio Pires
Administrador
Registado: fevereiro 5th, 2008, 9:14 pm

abril 2nd, 2018, 10:23 pm #1

Depois de uma estreia de sucesso, com taxas de ocupação de 100%, o comboio histórico do Vouga poderá não voltar aos carris no próximo Verão porque a Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário (EMEF), que pertence à CP, não tem pessoal disponível para reparar a locomotiva.
A máquina a diesel que reboca este comboio foi construída no País Basco em 1964 e precisa de uma cuidadosa reparação para a qual escasseiam meios humanos. Em alternativa, a CP possui uma locomotiva a vapor, também de via estreita, que poderia efectuar este serviço, mas acontece que também esta está avariada e a EMEF não dispõe de pessoal para a reparar.
Além da falta de pessoal, falta também o know how porque, com a política de rescisão de contratos adoptada pela empresa, muitos trabalhadores têm aproveitado para sair antes da reforma (a idade média dos trabalhadores desta empresa é de 49,2 anos). Por esse motivo escasseiam operários qualificados que tenham conhecimentos técnicos e experiência na reparação de locomotivas antigas.
Paradoxalmente, apesar das rescisões de contrato, a EMEF debate-se com falta de pessoal, mas o Ministério das Finanças não tem autorizado a contratação de mais trabalhadores.
Questionada pelo PÚBLICO sobre a capacidade de voltar a pôr o comboio histórico do Vouga nos carris, a CP deu uma resposta dúbia: “na sequência do sucesso obtido pelos comboios turísticos “Miradouro” e “Vouguinha” no seu primeiro ano de exploração comercial em 2017, a CP procurará assegurá-los igualmente no próximo Verão, nomeadamente o primeiro”.
Quanto ao segundo, para já, não está prevista a sua colocação em estado operacional, segundo o PÚBLICO apurou, até porque a EMEF já nem tem pessoal suficiente para conseguir fazer a manutenção dos comboios regulares. Por exemplo, em 2017, só na linha do Oeste, foram suprimidos 623 comboios por falta de material que avariou e não foi reparado por falta de meios.
O Vouguinha, como é conhecido na região, foi lançado como produto turístico da CP no Verão passado e revelou-se um êxito que surpreendeu a própria administração da empresa. Circulando apenas aos sábados, entre Julho e Setembro, nele viajaram 1995 pessoas, a que correspondeu uma taxa de ocupação de 100%.
A viagem realiza-se entre Aveiro e Macinhata do Vouga, onde os passageiros podem visitar o museu ferroviário e assistir a uma peça de teatro nas suas instalações. No regresso há uma paragem em Águeda para visitar a cidade.
E é precisamente devido ao êxito deste projecto que o autarca daquele concelho, Jorge Almeida, não quer acreditar que a CP o deixe cair. Em declarações ao PÚBLICO, o presidente da Câmara, eleito pelo PS, mostrou-se surpreendido com a possibilidade de o comboio não se realizar. “Não é possível! Estou convencido que a CP há-de encontrar uma solução para isto, até porque o comboio foi um tremendo sucesso”, disse.
Jorge Almeida diz que esperava que o comboio este ano começasse a circular logo em Maio ou Junho, e não em Julho como no ano passado. E que já adquiriu um terreno junto ao museu ferroviário de Macinhata do Vouga para ali criar espaços de lazer para os clientes do comboio turístico. Mandou também pintar e embelezar algumas estações e apeadeiros do percurso, preparando-as já para a próxima época.
Também surpreendido se mostrou o presidente da Câmara de Aveiro, Ribau Esteves (PSD), que sublinhou “o balanço muito positivo” deste comboio turístico no ano passado. “Ficou fixada a vontade de voltar a repeti-lo este ano e confio que, independentemente da complexidade ou simplicidade técnica do problema, a CP conseguirá resolvê-lo”, disse. “Foi uma experiência interessante que tem muito para crescer e é um produto diferenciador deste território”, rematou.
A falta de recursos da EMEF não afecta só o Vouguinha. O comboio The Presidential, um projecto privado vocacionado para um segmento alto que em 2017 ganhou o prémio de melhor evento público do mundo, esteve também em risco de não se realizar este ano por falta de capacidade da EMEF para fazer a manutenção das carruagens. Mas dada a projecção mediática e internacional deste produto, o assunto resolveu-se, mas não sem antes o problema ter chegado à esfera do governo.

Público

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